Até 39% da população pode ter uma lesão da coifa dos rotadores. - Clínica das Conchas | Medicina, Fisioterapia e Exercício Físico

Até 39% da população pode ter uma lesão da coifa dos rotadores.

Até 39% da população pode ter uma lesão da coifa dos rotadores.
07.09.2026

A coifa dos rotadores é um complexo anatómico especializado constituído por quatro unidades dinâmicas músculo-tendinosas que envolvem a articulação do ombro, nomeadamente a articulação gleno-umeral: o supra-espinhoso, o infra-espinhoso, o pequeno redondo e o subescapular.
(Jancuska et al., 2018)

Em conjunto, estes músculos criam um par de forças equilibrado que centraliza a cabeça do úmero na cavidade glenoidal, estabilizando-a durante todos os movimentos do ombro. Esta função é essencial porque a articulação gleno-umeral sacrifica a estabilidade óssea em prol da mobilidade, sendo a articulação mais móvel do corpo humano.

A coifa dos rotadores desempenha, assim, um papel duplo (Goetti et al., 2020), (Huri et al., 2019):

  1. gerar movimento (particularmente rotação e abdução) e,
  2. manter as forças compressivas necessárias para a congruência e estabilidade da articulação durante tarefas dinâmicas, como atividades de levantamento, alcance e movimentos acima da cabeça

As lesões da coifa dos rotadores estão entre as lesões musculo-esqueléticas mais prevalentes a nível mundial e a sua incidência aumenta drasticamente com a idade. Aicale et al. (2025), refere que a prevalência da lesão da coifa dos rotadores varia entre 5% e 39% na população geral, atingindo um valor superior a 30 % em pessoas com mais de 60 anos. É importante referir que muitas ruturas da coifa dos rotadores em idosos são assintomáticas, o que dificulta as estimativas epidemiológicas. No entanto, para os indivíduos sintomáticos, a lesão provoca dor considerável, desconforto noturno e um declínio acentuado na qualidade de vida (Fermont et al., 2014), (Kim et al., 2018).

Já na população pediátrica e adolescente, as lesões da coifa dos rotadores são menos comuns, mas estão a aumentar devido à crescente participação em desportos que envolvem movimentos acima da cabeça e contacto (Nolan et al., 2022).

Os fatores de risco para ruturas da coifa dos rotadores incluem:

  • avanço da idade,
  • elevado IMC,
  • o sexo masculino,
  • o envolvimento do braço dominante,
  • antecedentes de traumatismo no ombro,
  • atividades repetitivas com os braços acima da cabeça,
  • diabetes mellitus
  • e obesidade.

Uma revisão sistemática realizada por Hoppe et al. (2022), identificou evidências moderadas de que a posição em campo, o género, a força de rotação do ombro e a discinesia escapular constituem fatores de risco para lesões no ombro em desportos que envolvem movimentos acima da cabeça.

A intervenção cirúrgica é, geralmente, indicada quando o tratamento conservador falha ou quando são cumpridos critérios clínicos e anatómicos específicos. Em casos de ruturas traumáticas agudas, é necessária uma intervenção cirúrgica particularmente em indivíduos ativos e/ou jovens, que sofram ruturas totais devido a um traumatismo de elevada energia (Guadagno et al., 2023).

O insucesso do tratamento conservador, incluindo fisioterapia, modificação da atividade e/ou tratamento medicamentoso, nomeadamente em pacientes que não consigam obter alívio da dor ou recuperar a mobilidade funcional após 3 a 6 meses de tratamento não cirúrgico supervisionado, torna-os os principais candidatos à cirurgia (Sciarretta et al., 2023). Certos preditores estruturais de insucesso como roturas extensas (superiores a 3 cm), roturas maciças (mais de 5 cm) ou ruturas acompanhadas de fraqueza muscular progressiva significativa, apresentam maior probabilidade de necessitar de intervenção cirúrgica devido à retração progressiva do tendão, infiltração gordurosa no músculo e perda do binário de forças (Guadagno et al., 2023), (Sciarretta et al., 2023).

O tratamento cirúrgico de lesões da coifa dos rotadores evoluiu significativamente, existindo atualmente múltiplas técnicas disponíveis dependendo das características da lesão, do utente e da experiência do cirurgião. Parte dessa evolução incluiu a passagem de procedimentos invasivos abertos para métodos minimamente invasivos (Kim et al., 2018). A abordagem cirúrgica aberta tradicional proporciona uma visualização direta da lesão e embora continue a ser eficaz, foi amplamente substituída por técnicas menos invasivas devido à maior lesão dos tecidos moles, maior dor pós-operatória e uma recuperação mais prolongada. A artroscopia da coifa dos rotadores é, atualmente, considerada o “gold standard” e é a técnica mais comumente realizada, representado o culminar dos avanços em termos de ótica e fatores mecânicos. Esta técnica envolve a realização de pequenas incisões e a utilização de um artroscópio, que incluí uma câmara.  Além disso, apresenta várias vantagens nomeadamente menos dor, incisões menores, recuperação mais rápida e visualização de toda a articulação para patologias concomitantes (Sciarretta et al., 2023).

A importância da fisioterapia pré-operatória tem sido amplamente avaliada para determinar se altera os resultados pós-cirúrgicos. Neste contexto cirúrgico específico, a fisioterapia visa atingir vários objetivos:

  • restaurar a amplitude de movimento passiva e ativa, caso esta esteja reduzida pela dor ou rigidez;
  • melhorar a estabilidade escapular e o controlo neuromuscular; 
  • fortalecer os músculos remanescentes da coifa dos rotadores e a musculatura circundante;
  • educar o utente sobre as expectativas pós-operatórias e os protocolos de reabilitação;
  • e reduzir a dor pré-operatória através de modalidades terapêuticas e exercícios.

Todos estes fatores servem como excelentes indicadores de prognóstico para o sucesso pós-operatório (Fermont et al., 2014). No entanto, é importante ter em consideração que, no caso de roturas crónicas ou extensas, os défices estruturais como a atrofia muscular e processo degenerativo não podem ser revertidos apenas pela fisioterapia (Guadagno et al., 2023).

Em termos de prognóstico, a intervenção cirúrgica na coifa dos rotadores apresenta resultados favoráveis ​​para a maioria dos pacientes, com melhorias significativas da dor, funcionalidade, amplitude de movimento e qualidade de vida. Revisões sistemáticas de alto nível mostram que os fatores de prognóstico que determinam uma recuperação bem-sucedida podem ser divididos em categorias distintas: fatores positivos e negativos (Fermont et al., 2014).

A Idade mais jovem, elevada densidade mineral óssea basal, amplitude de movimento pré-operatória preservada e níveis mais elevados de atividade física pré-lesão constituem fatores positivos. Já os fatores negativos incluem idade avançada (superior a 70 anos), presença de comorbilidades (por exemplo, diabetes mellitus e obesidade) e maior dimensão da rotura. Ademais, enquanto as roturas menores e agudas apresentam um excelente prognóstico a longo prazo, as roturas crónicas maciças apresentam uma taxa de “re-rotura” de até 91% devido à falta elasticidade do tecido e à degeneração muscular (Guadagno et al., 2023).

A fisioterapia pós-operatória é universalmente reconhecida como essencial para alcançar resultados ótimos após a intervenção na coifa dos rotadores. A sua importância não pode ser subestimada, dado que é a reabilitação que restaura a função, a amplitude de movimento, a força e o controlo neuromuscular. A função completa do ombro não pode ser restaurada apenas com a cirurgia, uma vez que os pacientes sofrem frequentemente de inibição muscular a curto prazo e dor localizada (Longo et al., 2020). Uma fisioterapia bem estruturada equilibra a necessidade de proteger a frágil estrutura em cicatrização com a necessidade clínica de movimentar a articulação para prevenir a capsulite adesiva ("ombro congelado") e a atrofia muscular (Longo et al., 2020), (Paolucci et al., 2023).

Os protocolos de reabilitação pós-operatória seguem geralmente uma abordagem faseada, progredindo desde a proteção e controlo da dor até à restauração da função completa. Embora existam variações significativas entre protocolos, pode ser descrito um consenso.


A primeira fase, passa pela proteção e movimento passivo (0 a 6 semanas).
Os principais objetivos durante esta etapa são proteger a reparação cirúrgica, controlar a dor e a inflamação e manter a amplitude de movimento passiva para prevenir a capsulite adesiva (Coda et al., 2020).


A fase seguinte, caracteriza-se pelo movimento ativo-assistido e movimento ativo precoce (6 a 12 semanas).
O fortalecimento isométrico dos músculos da coifa dos rotadores (contrações musculares sem movimento articular) pode iniciar-se durante esta fase, juntamente com exercícios isométricos para os estabilizadores escapulares. O objetivo é atingir a amplitude de movimento passiva completa e iniciar a amplitude de movimento ativa em todos os planos.
 

A terceira fase consiste em fortalecimento (12 a 24 semanas).
São introduzidos exercícios resistidos progressivos dirigidos à coifa, ao deltoide e aos estabilizadores da omoplata. Isto inclui exercícios com banda elástica, pesos livres e fortalecimento com aparelhos (Coda et al., 2020).


A última fase (6 a 12 meses) foca-se no treino específico para o desporto e/ ou atividade.
Inclui movimentos acima da cabeça e tarefas funcionais relevantes para os objetivos do paciente. A progressão gradual de volta à atividade plena baseia-se na conquista de marcos clínicos específicos: amplitude de movimento ativa sem dor, força dentro de 10% do lado contralateral, pontuações funcionais satisfatórias e, quando indicado, evidência de cicatrização do tendão em exames de imagem complementares.

É igualmente importante ter em consideração que os protocolos de reabilitação são frequentemente modificados com base na dimensão da lesão. Para lesões pequenas a médias, a progressão pode ser mais acelerada. Por outro lado, para lesões maiores e extensas, é normalmente recomendada uma abordagem mais conservadora, com períodos mais longos de imobilização e progressão lenta, uma vez que estas lesões apresentam taxas mais elevadas de “re-rotura”.

Em última análise, a sinergia entre a técnica cirúrgica qualificada e a reabilitação baseada na evidência é essencial para garantir o sucesso do tratamento de uma da lesão coifa dos rotadores.


Da autoria da nossa fisioterapeuta Mariana Morais

 

Referências Bibliográficas:

Aicale, R. et al. (2025). Collagen Injections for Rotator Cuff Diseases: A Systematic Review. Clinics and Practice, 15(2), 28.

Coda, R. et al. (2020). A Review of Online Rehabilitation Protocols Designated for Rotator Cuff Repairs. Arthroscopy Sports Medicine and Rehabilitation, 2(4), e317-e324.

Fermont, A. J. M., Wolterbeek, N., Wessel, R. N., Baeyens, J. P., & de Bie, R. A. (2014). Prognostic factors for successful recovery after arthroscopic rotator cuff repair: A systematic literature review. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 44(3), 153–163.

Goetti, Patrick; Denard, Patrick J.; Collin, Philippe; Ibrahim, Mohamed; Hoffmeyer, Pierre; Lädermann, Alexandre (2020). Shoulder biomechanics in normal and selected pathological conditions. EFORT Open Reviews, 5(8), 508–518.

Guadagno, K., Srikumaran, U., Huish Jr, E. G., & Best, M. J. (2023). Massive rotator cuff tears: algorithmic approach to surgical treatment. Annals of Joint, 8, 38–38.

Hoppe, M.W., Brochhagen, J., Tischer, T., Beitzel, K., Seil, R. and Grim, C. (2022), Risk factors and prevention strategies for shoulder injuries in overhead sports: an updated systematic review. J EXP ORTOP, 9: 78.

Huri, Gazi; Kaymakoglu, Mehmet; Garbis, Nickolas (2019). Rotator cable and rotator interval: anatomy, biomechanics and clinical importance. EFORT Open Reviews, 4(2), 56–62.

Jancuska, J., Matthews, J., Miller, T., Kluczynski, M. A., & Bisson, L. J. (2018). A systematic summary of systematic reviews on the topic of the rotator cuff. Orthopaedic Journal of Sports Medicine, 6(9).

Kim, S., Hwang, J., Kim, M. J., Lim, J. Y., Lee, W. H., & Choi, J. E. (2018). Systematic review with network meta-analysis of randomized controlled trials of rotator cuff tear treatment. International Journal of Technology Assessment in Health Care, 34(1), 78–86.

Longo, U. G., Berton, A., Risi Ambrogioni, L., Lo Presti, D., Carnevale, A., Candela, V., Stelitano, G., Schena, E., Nazarian, A., & Denaro, V. (2020). Cost-effectiveness of supervised versus unsupervised rehabilitation for rotator-cuff repair: Systematic review and meta-analysis. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(8), 2852.

Nolan B. Condron, Joshua T. Kaiser, Dhanur Damodar, Kyle R. Wagner, Aghogho Evuarherhe, et al. (2022). Rotator Cuff Repair in the Pediatric Population Displays Favorable Outcomes: A Systematic Review. Arthroscopy, Sports Medicine, and Rehabilitation, 4(2).

Paolucci, T., Agostini, F., Conti, M., Cazzolla, S., Mussomeli, E., Santilli, G., Poso, F., Bernetti, A., Paoloni, M., & Mangone, M. (2023). Comparison of early versus traditional rehabilitation protocol after rotator cuff repair: An umbrella-review. Clinical Medicine, 12(21), 6743.

Sciarretta, F. V., Moya, D., & List, K. (2023). Current trends in rehabilitation of rotator cuff injuries. SICOT-J, 9, 14.

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