Reabilitação da rutura do tendão de Aquiles: o que diz a evidência? - Clínica das Conchas | Medicina, Fisioterapia e Exercício Físico

Reabilitação da rutura do tendão de Aquiles: o que diz a evidência?

Reabilitação da rutura do tendão de Aquiles: o que diz a evidência?
17.03.2026

A rotura do tendão de Aquiles é considerada uma das lesões tendinosas mais comuns do membro inferior, afetando predominantemente adultos ativos entre os 30 e 50 anos.

O tendão de Aquiles, formado pela convergência dos músculos gastrocnémio e solear inserindo-se no calcâneo, é o tendão mais forte do organismo, contudo está sujeito a enormes cargas, podendo atingir forças superiores a 10 vezes o peso corporal durante atividades explosivas, como corrida ou saltos.

A literatura recente diz-nos que incidência desta lesão tem aumentado, especialmente em indivíduos que praticam desporto de forma recreativa. A fisioterapia desempenha um papel fundamental em todo o processo de reabilitação, desde o pós-lesão até ao retorno seguro às atividades desportivas e funcionais.

 

Principais Sintomas:

  • A rotura do tendão de Aquiles ocorre tipicamente de forma súbita e apresenta sinais e sintomas característicos:
  • Dor intensa e súbita na região do tendão, frequentemente descrita como a sensação de ser atingido por um objeto duro.
  • Estalido audível ou sensação de “rasgar” no momento da lesão.
  • Dificuldade significativa em caminhar, especialmente ao realizar a flexão plantar.
  • Perda de força na perna afetada.
  • Inchaço e hematoma na zona posterior do tornozelo.
  • Palpação de um “gap” ou falha ao longo do tendão nos casos de ruptura completa.

 

Diagnóstico:

O diagnóstico desta patologia é essencialmente clínico baseado numa correta interpretação da combinação de avaliação clínica e exames de imagem.

 

Avaliação Clínica:

  • Teste de Thompson: ausência de flexão plantar ao comprimir o músculo gastrocnémio sugere rutura completa.
  • Teste da flexão plantar ativa: limitação ou incapacidade em realizar o movimento.
  • Palpação de um “gap” ao longo do tendão.

 

Exames Complementares:

Ecografia musculoesquelética: amplamente utilizada por ser rápida, económica e sensível na deteção de rupturas.

Ressonância Magnética (RM): indicada quando o diagnóstico é incerto ou para planeamento pré-cirúrgico, especialmente em ruturas parciais.

 

Tratamento:

O tratamento da rotura do tendão de Aquiles pode ser conservador ou cirúrgico, sendo a escolha influenciada pela idade, nível de atividade, extensão da lesão e preferências do paciente.

 

  1. Tratamento Cirúrgico

Indicado em:

  • Indivíduos jovens e ativos.
  • Necessidade de retorno rápido à atividade desportiva.
  • Ruturas completas com afastamento tendinoso significativo.

O tratamento cirúrgico da rotura do tendão de Aquiles consiste na reparação direta do tendão rompido através de uma intervenção que aproxima e sutura as suas extremidades, visando restaurar a sua continuidade e tensão natural. A cirurgia pode ser realizada através de uma abordagem aberta tradicional ou por técnicas minimamente invasivas, que utilizam incisões menores e podem reduzir o risco de complicações cutâneas. Após a reparação, o tornozelo é geralmente imobilizado numa posição de equino para proteger o tendão e permitir o início da cicatrização.

Nas primeiras semanas, o doente pode usar gesso ou, mais frequentemente, uma bota ortopédica com cunhas, permitindo uma redução gradual da flexão plantar à medida que o tendão recupera. A carga no membro operado é introduzida de forma progressiva, dependendo do protocolo adotado pela equipa cirúrgica, sendo habitual iniciar apoio parcial nas primeiras semanas e avançar gradualmente para carga total.

A fisioterapia é essencial e começa geralmente após a fase inicial de proteção. Inclui exercícios de mobilidade controlada, fortalecimento progressivo do tríceps sural, treino de marcha e recuperação funcional até ao retorno às atividades habituais. O tempo de recuperação após cirurgia costuma ser semelhante ao do tratamento conservador, com cicatrização inicial nas primeiras 6–8 semanas, recuperação funcional ao longo de 4–6 meses e regresso ao desporto entre 6 e 12 meses, dependendo da intensidade da atividade.

Entre as principais vantagens do tratamento cirúrgico destaca-se a redução do risco de nova rotura, sobretudo em doentes jovens e ativos, bem como a possibilidade de recuperação inicial ligeiramente mais rápida. No entanto, a cirurgia acarreta riscos específicos, como infeção, problemas de cicatrização, lesões nervosas e complicações associadas à anestesia. Por isso, a opção pelo tratamento cirúrgico é tomada após avaliação individual, ponderando idade, nível de atividade, tipo de rotura e preferências do paciente.

 

  1. Tratamento Conservador

O tratamento conservador de uma rotura do tendão de Aquiles consiste em permitir que o tendão cicatrize sem recurso a cirurgia, através de imobilização e reabilitação funcional progressiva.

Inicialmente, o pé é colocado em posição de equino (pontas dos pés para baixo) para aproximar as extremidades do tendão, recorrendo geralmente a uma bota ortopédica com cunhas de elevação do calcanhar ou, em alguns casos, a um gesso. Os protocolos modernos permitem carga progressiva relativamente cedo, começando com apoio parcial e reduzindo gradualmente a posição de equino ao longo de seis a oito semanas.

A fisioterapia é uma parte essencial do tratamento e costuma iniciar-se nas primeiras semanas, com exercícios de mobilidade controlada, fortalecimento progressivo da musculatura da panturrilha, treino de marcha e equilíbrio, e reabilitação funcional até ao regresso às atividades habituais.

A fase de imobilização dura habitualmente entre seis e oito semanas, enquanto a recuperação completa pode estender-se por quatro a seis meses, podendo o retorno ao desporto exigir entre seis e doze meses, consoante a exigência da atividade.

Este método tem como vantagens evitar os riscos cirúrgicos e apresentar resultados semelhantes aos da cirurgia quando se seguem protocolos funcionais modernos; contudo, mantém um risco ligeiramente superior de nova rotura e pode deixar alguma fraqueza residual se a reabilitação não for cumprida de forma adequada.

 

Papel da Fisioterapia na Reabilitação

A fisioterapia é essencial para restaurar a função do tendão e otimizar o retorno à atividade. O plano varia conforme o tipo de tratamento (cirúrgico ou conservador), mas inclui:

Fase Inicial (0–6 semanas)

  • Controlo da dor e edema.
  • Mobilização passiva gradual (segundo protocolo médico).
  • Treino de marcha com ortótese funcional.
  • Exercícios isométricos de baixa intensidade dos músculos da perna.

 

Fase Intermédia (6–12 semanas)

  • Aumento progressivo da carga.
  • Reforço muscular excêntrico e concêntrico dos gémeos e sóleo.
  • Trabalho de mobilidade do tornozelo.
  • Início de treino de equilíbrio e proprioceção.

 

Fase Avançada (12–24 semanas)

  • Aumento da resistência e força muscular.
  • Treino pliométrico e gestos desportivos (para atletas).
  • Reeducação de padrões de corrida.
  • Retorno progressivo à atividade, monitorizado por critérios funcionais (ex.: saltos unilaterais, simetria de força).

 

Considerações Importantes

  • O sucesso da recuperação depende de protocolos de mobilização precoce, atualmente preferidos face à imobilização prolongada.
  • A comunicação entre médico, fisioterapeuta e paciente é crucial para ajustar a progressão da carga.
  • O retorno ao desporto deve ser criterial e não baseado apenas no tempo pós-lesão.
  • A prevenção da rerutura inclui treino excêntrico, fortalecimento contínuo do complexo gastro-sóleo e correção de fatores biomecânicos.
  • A adesão do paciente ao programa de reabilitação é determinante para o prognóstico.

 

Conclusão

A rutura do tendão de Aquiles representa uma lesão grave, mas com um bom prognóstico quando tratada de forma adequada. A fisioterapia assume um papel central em todas as fases da reabilitação, promovendo a cicatrização, restaurando a força e a função e garantindo um retorno seguro às atividades diárias e desportivas. Protocolos baseados em evidência, aliados a uma abordagem interdisciplinar, são essenciais para otimizar os resultados clínicos.

 

Da autoria da equipa de fisioterapia

 

Referências:

Kearney RS, McGuinness KR, Achten J, Costa ML.
A systematic review of early rehabilitation methods following a rupture of the Achilles tendon.
Physiotherapy. 2012;98(1):24-32.

Dams OC, van den Akker-Scheek I, Diercks RL, et al.
The recovery after Achilles tendon rupture: a protocol for a multicenter prospective cohort study.
BMC Musculoskelet Disord. 2019;20:69

Achilles Tendon Rupture Treatment Systematic Review and Meta-analysis.
J Orthop. 2024;52:112-118.

Functional rehabilitation of patients with acute Achilles tendon rupture: a meta-analysis of current evidence.
PubMed; PMID: 2505190

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